
Comitê do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação presta esclarecimentos sobre a situação atual do surto e as implicações para o país
O primeiro informe do ano da Rede Vírus do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações (MCTI) aborda a situação atual e implicações, para o Brasil, do vírus Nipah (NiV), que teve, recentemente, dois casos confirmados em profissionais de saúde no estado de West Bengal, Índia. O NiV é um vírus zoonótico com letalidade altamente elevada, o que faz com que integre a lista de patógenos prioritários para pesquisa e desenvolvimento da Organização Mundial da Saúde (OMS).
Segundo a Rede Vírus, o risco atual para o Brasil é muito baixo, considerado o histórico recente de circulação do NiV e pelo fato de que os principais morcegos reservatórios naturais conhecidos do vírus se limitam à Ásia e Oceania. Até o momento, foram rastreados ao redor de 200 possíveis contatos, todos assintomáticos e negativos. Assim, apesar do potencial de alta letalidade das infecções pelo NiV, dados indicam que não há indícios de transmissão sustentada na comunidade.
Desde o início do primeiro relato de NiV, na Malásia em 1998, esse quadro se insere em uma história regional com surtos do vírus documentados em cinco países do Sul e Sudeste Asiático (Bangladesh, Índia, Malásia, Filipinas e Singapura). Em relação à Índia, o primeiro grande surto ocorreu no estado de Kerala em 2018 (Kozhikode), seguido por eventos em 2021 e 2023, e por novos casos em 2025 (Malappuram e Palakkad), com avaliações oficiais indicando baixo risco de disseminação internacional e recomendação de prontidão. No leste da Índia, West Bengal registrou surtos em 2001 (Siliguri) e 2007 (Nadia), com transmissão nosocomial documentada. Em Bangladesh, desde 2001 há confirmações quase anuais, incluindo quatro casos fatais esporádicos entre janeiro e agosto de 2025.
Além disso, no acompanhamento dos surtos ocorridos ao longo dos últimos anos, a OMS avaliou como baixo o risco de disseminação internacional.
Nesse sentido, a Rede Vírus informa que está atenta ao monitoramento da situação na Índia e pronta para colaborar em eventuais estratégias de enfrentamento, assim como se coloca à disposição da sociedade para prestar informações sobre o NiV”, afirma o virologista e pró-reitor de Pesquisa, Pós-Graduação e Extensão da Universidade, Fernando Spilki, que também é coordenador da Rede Nacional de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação em Vigilância Genômica de Viroses Emergentes e Reemergentes (Virômica-MCTI), integrante da Rede Vírus.
Instituto de Veterinária de Ipoh, Malaysia, onde foi descoberto o vírus nos anos 1990, visitado por Spilki em 2017
O que é o Nipah
O NiV é um vírus zoonótico capaz de causar desde infecções assintomáticas até quadros graves de insuficiência respiratória e encefalite em seres humanos, com letalidade de 40 a 75%. A infecção humana ocorre, em geral, por contato direto com animais infectados, pelo consumo de alimentos contaminados por secreções de morcegos ou por transmissão pessoa a pessoa em contatos próximos e ambientes assistenciais nas regiões de circulação do vírus. O período de incubação típico é de quatro a 14 dias, podendo ser mais longo (até 45 dias).
Na natureza, a circulação e manutenção do Nipah estão ligadas à ecologia dos morcegos frugívoros do gênero Pteropus (reservatórios naturais do NiV). Eventos como a intensificação de atividades extrativas e agrícolas, urbanização e mudanças no uso do solo estão ligados ao transbordamento do vírus a seres humanos e animais domésticos.
Sobre a Rede Vírus-MCTI
A rede Vírus-MCTI funciona como um comitê de assessoramento estratégico com o objetivo de subsidiar o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação com informações científicas, auxiliando na tomada de decisões. A partir da articulação entre universidades, laboratórios e pesquisadores de todo país, promove a integração dos esforços de pesquisa científica e desenvolvimento tecnológico em viroses emergentes. A Feevale integra a Rede, por meio da Virômica-MCTI.