Estudos desenvolvidos na Universidade Feevale analisam o fenômeno das bets e seus impactos sobre diferentes atores da sociedade

A recente proibição das bets no Brasil abre uma nova etapa no debate sobre as apostas esportivas e os jogos online no país. Em 25 de setembro, foi publicada a Medida Provisória nº 1.394/2026, que proíbe a exploração, a oferta, a intermediação e a publicidade das apostas de quota fixa em território nacional. A medida abrange tanto apostas sobre eventos esportivos quanto jogos online e prevê o encerramento das autorizações das empresas que atuavam regularmente nesse mercado. A MP está em tramitação no Congresso Nacional.
Na Universidade Feevale, o tema já vem sendo investigado e integra o projeto de pesquisa coordenado pelo professor Marcelo Curth sobre o consumo em plataformas digitais. A iniciativa busca compreender transformações no comportamento dos consumidores em ambientes mediados por plataformas digitais e, dentro dessa agenda mais ampla, as apostas esportivas constituem uma das frentes de investigação.
Para Curth, um dos pontos fundamentais é compreender que as bets não podem ser analisadas apenas pela relação entre a plataforma e a pessoa que aposta. Trata-se de um ecossistema que reúne diferentes atores, como consumidores, empresas de apostas, clubes, atletas, patrocinadores, anunciantes, meios de comunicação, organizações esportivas, agentes públicos, profissionais da saúde, famílias e comunidades de apoio.
“É importante olhar para as apostas como um ecossistema. São muitos os players envolvidos e, por isso, os efeitos desse fenômeno não podem ser analisados somente a partir das plataformas e dos apostadores. Precisamos ampliar as investigações para compreender como diferentes stakeholders são afetados e como também participam da construção desse ambiente. Quanto mais conseguirmos investigar essas diferentes perspectivas, mais condições teremos de produzir conhecimento que possa contribuir para o mercado, para as organizações esportivas, para a sociedade e para a formulação de políticas públicas.”
Diferentes perspectivas sobre o mesmo fenômeno
Dentro do projeto sobre consumo em plataformas virtuais, uma das frentes de pesquisa procura compreender o comportamento relacionado às apostas em ambientes digitais. Os estudos analisam aspectos como experiência nas plataformas, formação de hábitos, estratégias de marketing e influência de atores do esporte sobre o comportamento dos consumidores.
Uma das pesquisas já desenvolvidas, por exemplo, analisou o papel dos atletas nesse processo. Os resultados indicaram que a influência comportamental exercida por atletas pode fortalecer a relação entre o hábito de utilização das plataformas e a disposição do consumidor para apostar mais. O estudo também coloca em discussão a crescente integração entre apostas, comunicação, marketing esportivo e consumo entre públicos mais jovens.
Outra frente das investigações concentra-se nas consequências relacionadas ao consumo vulnerável e à saúde pública, especialmente quando apostar deixa de representar apenas uma atividade de entretenimento e passa a estar associado à perda de controle e a impactos emocionais, sociais e financeiros.
Nesse campo, os pesquisadores vêm estudando comunidades digitais de apoio formadas por pessoas que enfrentam problemas relacionados aos jogos. Os trabalhos identificaram práticas relacionadas ao acolhimento, apoio social, controle financeiro, bloqueio de plataformas e redução da exposição a gatilhos como mecanismos presentes nos processos de recuperação.
Outra investigação aprofunda a dimensão emocional desse processo, analisando como emoções como aceitação, confiança, tristeza e apreensão aparecem e se combinam nas interações entre participantes de uma comunidade digital de recuperação. Os resultados reforçam a importância das relações sociais e do apoio coletivo na compreensão dos processos relacionados à vulnerabilidade e à recuperação.
A trajetória de investigação antecede o atual debate sobre a proibição das bets. No último ano, o tema também foi levado ao congresso da Associação Brasileira de Gestão do Esporte (Abragesp), onde Curth palestrou sobre as apostas esportivas e suas implicações para o esporte e para a gestão esportiva.
Além da produção e divulgação dos estudos no Brasil, a agenda está avançando em direção à internacionalização. Está em desenvolvimento a formação de um grupo de investigação envolvendo a Feevale e universidades da Europa, com a perspectiva de ampliar as pesquisas, realizar estudos em diferentes contextos e construir uma agenda internacional sobre o fenômeno.
A articulação internacional também permitirá observar como diferentes ambientes institucionais, culturais e regulatórios se relacionam com as apostas e seus stakeholders. Para Curth, essa diversidade de perspectivas é particularmente relevante diante das transformações recentes no Brasil.
“A mudança no cenário brasileiro não encerra o fenômeno; ela cria novas perguntas de pesquisa. Precisamos acompanhar o que acontece com os consumidores, mas também com clubes, atletas, patrocinadores, organizações, famílias e outros atores desse ecossistema. Investigações em diferentes países e contextos podem nos ajudar a ampliar o conhecimento sobre esses efeitos e compreender como os diferentes stakeholders respondem às mudanças no ambiente das apostas”, finaliza.