Levantamento realizado com músicos em cinco países, com participação de pesquisadores da Universidade Feevale, mostra que artistas brasileiros estão insatisfeitos com a remuneração do streaming, embora reconheçam sua importância para a visibilidade

Embora o streaming tenha se consolidado como uma ferramenta essencial para a divulgação musical, a remuneração gerada pelas plataformas ainda está longe de satisfazer os artistas brasileiros. É o que mostra o relatório Músicos no mercado de trabalho na era das plataformas e da IA: evidências do Brasil, Chile, Países Baixos, Nigéria e Coreia do Sul, coordenado pelo professor Robert Prey, da Universidade de Oxford, em parceria com o instituto Ipsos. O estudo baseia-se em uma pesquisa realizada com cerca de 1.200 músicos e 27 entrevistas de acompanhamento com artistas no Brasil, Holanda, Nigéria, Coreia do Sul e Chile, sendo 417 participantes brasileiros. No Brasil, a pesquisa tem participação da Universidade Feevale, por meio da colaboração da professora Vanessa Valiati, do Programa de Pós-Graduação em Processos e Manifestações Culturais.
Os dados revelam que 77% dos artistas brasileiros estão insatisfeitos com a renda obtida por meio do streaming, apesar de 78% considerarem essas plataformas importantes para ampliar a visibilidade e alcançar novos públicos. De modo geral, esses resultados mostram um paradoxo: enquanto os músicos dependem de plataformas como o Spotify para obter visibilidade, para muitos, isso não se traduz em uma renda sustentável. O levantamento também aponta que artistas que iniciaram suas carreiras antes da popularização do streaming apresentam rendimentos superiores aos que ingressaram no mercado já na era das plataformas digitais.
Para Robert Prey, a pesquisa ajuda a compreender como músicos de diferentes contextos estão lidando com essas transformações. “Lança luz sobre como artistas musicais estão se adaptando ao streaming e à economia de plataformas em uma ampla variedade de países ao redor do mundo. Como um dos dez maiores mercados musicais do mundo, e o maior da América Latina, o Brasil também é líder global no consumo de streaming. Nossa equipe de pesquisa brasileira fez um trabalho excepcional ao coletar percepções de artistas brasileiros para este estudo”, destaca.
Outro dado que chama atenção do público brasileiro é a forte dependência do mercado interno. Segundo a pesquisa, 95,3% dos artistas brasileiros entrevistados geram praticamente toda a sua renda dentro do próprio país O estudo também mostra que a promoção digital passou a fazer parte da rotina dos músicos. Cerca de 92% dos respondentes acreditam que artistas precisam ser criativos para engajar fãs e manter presença constante nas plataformas. No entanto, muitos relatam dificuldades em atender a essa demanda, que se soma às atividades de criação e produção musical. A pesquisa também discute como os artistas estão, de fato, utilizando ferramentas de IA em seu trabalho criativo e por que muitos músicos ainda consideram que a criatividade humana, a emoção e a apresentação ao vivo continuam sendo difíceis de substituir.
A colaboradora do estudo no Brasil, Vanessa Valiati, pesquisadora do Programa de Pós-Graduação em Processos e Manifestações Culturais da Universidade Feevale, líder de projetos sobre música e plataformas digitais financiados pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio Grande do Sul (Fapergs), destaca que os resultados revelam desafios compartilhados por artistas de diferentes partes do mundo. “Essa pesquisa nos permitiu ouvir músicos de cinco países muito diferentes que enfrentam desafios semelhantes. Como, por exemplo, o streaming tornou-se indispensável para a visibilidade, mas continua entregando pouco financeiramente. Ainda assim, vimos resiliência e criatividade, o que deixa claro que precisamos de políticas e regulamentações que acompanhem a realidade”, afirma.
Os resultados brasileiros acompanham uma tendência observada globalmente. Em todos os países pesquisados, o streaming aparece como uma ferramenta fundamental para promoção e descoberta musical, mas os retornos financeiros são considerados insuficientes pela maioria dos artistas. A pesquisa também aponta que a insegurança financeira é uma realidade recorrente no setor, especialmente entre músicos independentes.
Sobre a pesquisa
O estudo integra o projeto internacional PlatforMuse, financiado pelo Conselho Europeu de Pesquisa (ERC), que investiga os impactos das plataformas digitais sobre o trabalho musical contemporâneo. A pesquisa foi realizada com músicos e produtores do Brasil, Holanda, Nigéria, Coreia do Sul e Chile, buscando compreender como artistas de diferentes contextos vivenciam as transformações provocadas pelo streaming, pelas redes sociais e pelas novas tecnologias digitais.