Pesquisa avalia função pulmonar de trabalhadores de carvoarias ao longo de oito anos | Universidade Feevale

Pesquisa avalia função pulmonar de trabalhadores de carvoarias ao longo de oito anos

19/12/2018 - Atualizado 13h42min
Carvoaria em Lindolfo Collor
Carvoaria em Lindolfo Collor

Tese do professor Rafael Machado de Souza, que será apresentada nesta quinta-feira na Universidade Feevale, ressalta a importância da utilização dos equipamentos de proteção individual


O Brasil é considerado um dos maiores produtores e consumidores de carvão vegetal no mundo, com produção correspondendo a 30% do volume mundial. No entanto, há poucos estudos, no País e no mundo, que deem conta da saúde dos trabalhadores do setor, os quais convivem diariamente com o ambiente insalubre e enfumaçado das carvoarias. Evidências apontam que o trabalho contínuo em carvoarias pode levar ao declínio da função pulmonar – agravado se o trabalhador tem o hábito de fumar.

Nesta quinta-feira, 20 de dezembro, o professor e pesquisador da Universidade Feevale, Rafael Machado de Souza, apresenta o resultado de sua tese de doutorado A qualidade do ar, o comportamento da função pulmonar e a ocorrência de doenças respiratórias em trabalhadores da produção de carvão vegetal em três municípios do estado do Rio Grande do Sul. Realizada no âmbito do programa de pós-graduação em Qualidade Ambiental, a pesquisa teve o objetivo de avaliar se, ao longo de oito anos de trabalho contínuo na indústria do carvão, os trabalhadores tiveram declínio em suas funções pulmonares. 

A apresentação acontece a partir das 9h, na sala 200B do prédio Lilás, no Câmpus II da Instituição. O orientador da tese é o pesquisador Paulo José Zimermann Teixeira, da Feevale, e a banca examinadora será composta pelos professores. Daniela Montanari Migliavacca Osório, da Universidade Feevale, Eduardo Garcia, da Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre (UFCSPA) e Carlos Nunes Tietboehl Filho, coordenador da Comissão de Doenças Ambientais e Ocupacionais da Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia.

Sobre o estudo

A tese continuou o trabalho da dissertação de mestrado de Souza, que realizou entrevistas e exames com carvoeiros de 41 propriedades dos municípios de Lindolfo Collor, Ivoti e Presidente Lucena no ano de 2008. O objetivo foi aferir a saúde desses trabalhadores, avaliando a sua função pulmonar e os possíveis sintomas respiratórios advindos da convivência com a fumaça oriunda da queima do material, como asma, bronquite e rinites, entre outros. 

Com início em 2016, a coleta de dados se deu em três fases: a fase 1 (2016) consistiu em retornar a todas as 41 propriedades visitadas em 2008. Os 51 participantes da tese foram reavaliados através da função pulmonar e entrevista sobre sintomas respiratórios, semelhantes a 2008. A fase 2 avaliou as medidas dos volumes pulmonares e da difusão de monóxido de carbono no laboratório da Universidade e tomografia de tórax realizada no Serviço de radiologia do Hospital Regina, de Novo Hamburgo. A fase 3 consistiu no monitoramento do material particulado e obtenção das variáveis meteorológicas em trinta coletas de 24 horas cada, durante o ano de 2017.

Como resultados, a avaliação da função pulmonar dos 51 trabalhadores reavaliados demonstrou um declínio médio e significativo da Capacidade Vital Forçada (CVF) de 48ml/ano e do Volume Expiratório Forçado no primeiro segundo (VEF1) de 37 ml/ano antes da utilização do broncodilatador (BD). Considerando os valores após o uso do BD, também se observou queda significativa da média da CVF de 51 ml/ano e do VEF1 de 38ml/ano. Em uma pessoa exposta a condições normais, a CFV deveria ficar em 20ml /ano até os 40 anos de idade e 38ml /ano para maiores de 40 anos.

Dos 42 carvoeiros que realizaram a tomografia de tórax, apenas 5 (11,9%) apresentaram exames dentro da normalidade, sendo que a maioria 32 (76,1%) foi diagnosticado com espessamento difuso de paredes brônquicas por broncopatia. Do total de 51 carvoeiros reavaliados a ocorrência da rinite ocupacional foi de 26,4%, a doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC) foi de 18,9%. Embora as concentrações de micropartículas no ar tenham sido avaliadas como dentro da normalidade, o estudo sugere estratégias para estimular o uso de equipamentos de proteção individual, a supressão do tabagismo e um maior controle ambiental nestas áreas, ações que seriam de extrema importância no sentido de minimizar os danos respiratórios ocasionados pela atividade carvoeira.

Veja fotos:

Pesquisa avalia saúde dos trabalhadores do carvão