
Realizado o âmbito do mestrado em Administração da Universidade Feevale, estudo busca compreender a relação entre a identificação por seus times e as decisões de compra dos torcedores
O futebol ultrapassa o campo e se consolida como um dos espaços mais potentes de construção simbólica e identitária na sociedade contemporânea. Camisas de clubes e seleções não são apenas produtos esportivos, mas artefatos carregados de significado, tradição e pertencimento, que permitem aos torcedores expressar quem são e a quais grupos desejam estar associados.
Nesse contexto, o professor Marcelo Curth, da Universidade Feevale, vem desenvolvendo estudos que investigam a relação entre branding (construção de marca), identidade e a falsificação de materiais esportivos. As pesquisas, realizadas no âmbito do mestrado em Administração, buscam compreender como torcedores avaliam, consomem e atribuem valor a esses produtos.
Para esse fim, foi aplicada uma pesquisa estruturada a torcedores da dupla Gre-Nal, com início no primeiro semestre do ano passado. Conduzida de forma online, permitindo alcançar torcedores de diversos perfis sociodemográficos, a coleta de dados contemplou conceitos como identificação com o time, qualidade percebida, atitudes em relação a produtos falsificados, intenção de compra, normas sociais e percepção de exclusividade. Até o momento, a pesquisa teve aproximadamente 300 respondentes.

Futebol como símbolo e identificação
Curth (foto) explica que os resultados obtidos indicam que o consumo no futebol é fortemente orientado por dimensões simbólicas. Isso significa que a identificação com o time é mais determinante do que a qualidade percebida dos produtos oficiais. Conforme os achados do estudo, esse entendimento vai influenciar na baixa valorização percebida dos produtos oficiais por parte dos consumidores, o que pode favorecer a abertura para o consumo de itens falsificados.
Quando o torcedor não percebe diferenciação clara, legitimidade ou valor adicional no produto original, a barreira simbólica contra a falsificação tende a diminuir. Nesse sentido, a decisão de consumo deixa de ser guiada pela autenticidade e passa a incorporar critérios como acessibilidade e custo-benefício”, afirma Curth.
Outro aspecto importante refere-se à hierarquia da identidade no consumo esportivo. Segundo o pesquisador, a identidade do torcedor está, em primeiro lugar, associada ao clube ou seleção, e apenas em um segundo momento à marca fornecedora de material esportivo. Isso ajuda a explicar por que produtos falsificados continuam sendo consumidos: mesmo não sendo oficiais, eles ainda cumprem a principal função simbólica, que é o de representar o vínculo com o time.
Torcedor enxerga primeiro o clube, depois a marca esportiva
Os resultados também demonstraram que o alto preço das camisas oficiais aparece como um fator relevante. Para parte dos torcedores, especialmente aqueles situados em faixas intermediárias de renda, o custo elevado dos produtos oficiais pode funcionar como uma barreira de acesso, ampliando a atratividade de alternativas não oficiais. Esse resultado dialoga com a dimensão econômica do consumo e evidencia que, mesmo em contextos altamente simbólicos, o preço continua sendo um elemento decisivo para compra de produtos oficiais como primeira opção.
Entretanto, existe um contraponto importante nos achados. “Quando a identidade e a percepção de exclusividade se tornam mais salientes, a tendência de recorrer a produtos falsificados diminui”, pontua Curth. Torcedores que valorizam autenticidade, distinção e legitimidade tendem a preferir produtos oficiais, mesmo diante de preços mais elevados. “Isso reforça o papel estratégico da exclusividade e da construção simbólica das marcas como mecanismos de proteção contra a falsificação”, salienta.
Como continuidade da agenda de pesquisa, o estudo está sendo replicado em Portugal, permitindo comparações internacionais e ampliando a compreensão sobre como fatores culturais, econômicos e contextuais influenciam o comportamento de consumo de produtos esportivos em diferentes mercados. A pesquisa possui, ainda, dados em nível nacional, os quais estão sendo analisados e que, posteriormente, serão divulgados.